Chico Nappi

Galpões, armazéns, edifícios baixos, janelas quebradas e fachadas gastas pouco a pouco. Embora continue importante via de ligação entre a Marginal Tietê e o Centro para quem sai do ABC e zona sudeste de São Paulo, a Avenida do Estado, no Ipiranga carrega consigo o impiedoso resultado do tempo.

A região já abrigou indústria bélica – construção de tanques de guerra – e diversos outros segmentos, como produção têxtil e automotiva. De acordo com artigo disponível no site da Prefeitura de São Paulo, “(…) No início do século XX, o bairro [Ipiranga] até então isolado e pouco habitado, passou por um processo de ocupação industrial (…). Em 1905 já existiam 19 fábricas empregando quase 7 mil operários (…)”. Em 1950, o “Bairro Operário”, como era chamado foi considerado o mais industrializado da cidade.

O tempo tem preço.

Logo ali na Avenida do Estado, precisamente ao lado direito da calçada, poltronas, cadeiras, vasos e outros objetos fazem a entrada da loja. Claro, a vitrine mostra a razão social do estabelecimento e no breve toque da campainha se vê a silhueta de um homem alto. Francisco Mauro Nappi, ou melhor, “Chico Nappi”, abre a porta de vidro sorrindo. Entrando na sala, uma poltrona aveludada ao canto foi restaurada por ele, bem em frente à televisão de “tubo”. A iluminação incandescente deixa o ambiente mais confortável.

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Luminárias e peças antigas.

Com seus setenta e cinco anos, Nappi apresenta boa forma e disposição para tocar o negócio que exerce papel fundamental na continuidade da sua vida. Trabalhar com restauração de móveis antigos não é para qualquer um. Exige criatividade e pegar pesado no batente, valendo acordar cedo e dormir tarde. Ficar parado não é para ele.

Nascido no Rio de Janeiro e formado em arquitetura, Nappi construiu sua reputação como um dos melhores projetistas no final da década de 60, aqui em São Paulo. Em razão da crise mundial entre 1973 e 1979, o setor de construção civil ficou parado e Nappi e muitos outros profissionais foram demitidos. Casado e com filhos para cuidar, resolveu arriscar um novo trabalho baseado em uma reportagem de revista: o comércio de móveis e peças antigos.

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Cadeiras aguardando reforma.

Ao lado de sua esposa Tânia, colocaram algumas peças no carro e foram à Praça Benedito Calixto, em Pinheiros. Lá, espalharam as peças no chão e aguardaram. Conseguiram vender uma peça por um valor alto. Decidiram participar das feiras aos finais de semana. A observação o possibilitou unir um novo trabalho, e a restauração de móveis também foi adquirido. Os trabalhos sempre são feitos a mão, os folheados a ouro e a marchetaria, uma técnica de ornamentar as superfícies planas de móveis.

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Ornamento feito por Nappi

 

“Dormir pobre. Acordar na miséria”.

“O período de vendas da feira duraram até 1994. A feira estava praticamente falida. Morávamos na região central da São Paulo e tivemos que nos mudar, porque o valor para manter o imóvel era muito elevado. Decidimos nos mudar para o Ipiranga que também era o desejo do meu sogro. Ele já morava no bairro. Tínhamos todos os nossos móveis, peças e mercadorias para a venda. Uma enchente levou tudo o que tínhamos. Roupas, calçados, pertences. A minha sogra faleceu em seguida. Fomos dormir pobres para acordar miseráveis. Somente ficamos com a roupa do corpo”, afirma Nappi.

Uma senhora presenciou a família lavando os móveis na porta de casa, no dia seguinte da enchente e parou para perguntar se trabalhavam com antiguidades. O interesse dela seria uma esperança. Diante da resposta positiva, foram convidados para realizar um projeto de decoração na residência dela e outros trabalhos foram sucedendo, possibilitando um novo recomeço. “Hoje estamos aqui, nessa casa própria. Entramos nessa casa com a roupa do corpo”, ressalta Tânia.

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Oficina e reduto de criação.

 

Sorveteria.

A casa ao lado da loja também faz parte do trabalho da família. Já com os filhos criados e em companhia de dois cachorros e dois gatos, Nappi trabalha em sua oficina, na própria garagem. Quem passa na frente da casa consegue ver o artesão, manuseando ferramentas e concentrado na atividade.  A organização das coisas fica ao olhar do artista.

“Não temos a intenção de parar com antiguidades. Quem sabe em breve não abrimos uma sorveteria temática?”.

Texto e fotos: Tico Mendes

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