Antonio Augusto Geraldini

A escadaria de acesso à saída do Metrô era extensa. Dava para sentir a umidade do tempo que carregava consigo o mormaço. No último degrau, o martírio cessou de imediato: à frente, uma das mais importantes e imponentes obras arquitetônicas do centro de São Paulo que liga a Pinacoteca do Estado de São Paulo e o Museu da Língua Portuguesa, emergira. 

Sim, estamos nos referindo à famosa Estação da Luz. Antigamente, a então Estação São Paulo (também conhecida por “São Paulo Railway Company”) edificada em 1867, tinha como objetivo o escoamento do café – principal produto brasileiro – entre o porto de Santos e Jundiaí. Irineu Evangelista de Sousa – inicialmente barão e, posteriormente titulado -, o Visconde de Mauá, José Pimenta Bueno (Visconde de São Vicente) e José da Costa Carvalho (Marquês de Monte Alegre) idealizaram a façanha durante o governo imperial. O engenheiro britânico Charles Henry Driver ficou incumbido pela execução da obra. Foi em 1901 que a estação passou a se chamar “Estação da Luz”.

Pedestres e veículos no mesmo espaço.

A alguns metros de distância da escadaria, o acesso é bloqueado pela Companhia de Engenharia de Tráfego, a CET, para que circulem apenas pessoas e veículos que participem do “Encontro de Carros Antigos na Estação da Luz”. O evento é organizado pela Federação Paulista de Automóveis Antigos, FPAA, responsável pelo cadastro e realização do evento. No encontro, peças raras ou que já saíram de circulação são comercializadas na feira ao ar livre.

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Por toda a rua, diversas tendas abrigam associações ao lado de motos, bicicletas personalizadas e veículos antigos estacionados. Cada tenda corresponde a um clube; um gosto específico. Mensalmente, no primeiro domingo do mês, os associados se encontram para exibir suas raridades e conversar com outros participantes, além de responderem as inúmeras perguntas dos visitantes.

Um homem. 350 carros.

Instalada no meio do percurso, uma tenda azul atrai olhares curiosos. Em torno da base, aproximadamente vinte e cinco carros antigos compõem um cenário que para muitos significa ostentação.

O público interno é composto por homens e mulheres de diversas idades em prol de uma marca antiga e que até hoje é presença no mercado automobilístico: a Ford. Mas diferente dos modelos que trazem tecnologia de compartilhamento em redes sociais, o Antigomobilismo – preservação e restauração de veículos antigos – é a “palavra-chave”.
Trajando calça jeans, camisa polo azul e um boné preto, Antonio Augusto Geraldini é o atual responsável por dar direção na histórica jornada do “Clube do Fordinho”.

Adesivo

O clube foi fundado em 1971 pelo publicitário Renato José Ribeiro Perracini, grande adorador da marca desde criança. Ao lado do irmão Ney Perracini, tiveram a ideia de fundar durante uma reunião com amigos no bairro do Tucuruvi, um clube que tivesse o objetivo de cuidar e de revitalizar os veículos “Modelo A”, isto é, os modelos fabricados entre 1928 e 1931. No começo, eram somente dez associados.

“Hoje, o Clube do Fordinho, um dos clubes mais antigos do país possui seiscentos e quarenta associados espalhados por dezenove estados brasileiros. As associações não param de crescer. O clube possui trezentos e cinquenta veículos ‘Modelo A’. A sede da associação está localizada no bairro Ipiranga, ao lado da Vila Monumento, zona sul da capital e as reuniões são semanais.”, ressalta Geraldini.

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Presidente do clube há oito anos, Geraldini carrega a bagagem da experiência enquanto ocupou o cargo de diretor por aproximadamente dezesseis anos. Exige-se conhecimento técnico dos veículos e boa administração. “Trabalhamos com carros de oitenta e cinco anos de tradição. Os fordinhos são em sua grande maioria originais – os veículos ‘Modelo A’ eram produzidos nos Estados Unidos e estima-se que entre 1928 e 1931, cerca de 05 milhões de unidades tenham sido produzidas e comercializadas – e no Brasil, acreditamos que existam cerca de setecentos mil exemplares do modelo. Não é qualquer mecânico que pode garantir manutenção de qualidade. As peças são importadas e apenas 40% ainda são encontradas aqui no país”, afirma.

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Apaixonado pela marca desde jovem, quando comprou um Ford 47, bem mais novo comparado aos modelos do clube, Geraldini garante que o amor pelo modelo vai além da associação. “Temos associados que não possuem nem um veículo da marca Ford, mas quando viajamos para o interior ou outros estados, a emoção é tão grande que acabam adquirindo um “Modelo A” depois de um certo tempo. Esses veículos são antigos mas têm um desempenho espetacular. Temos duas grandes viagens realizadas para a Argentina e Uruguai. Já fomos também para Brasília, Goiás, Minas Gerais e Rio de Janeiro. As viagens são constantes. Há um grupo  que pretende ir até Detroit, nos Estados Unidos com o fordinho. Estão estudando questões burocráticas alfandegárias, taxas, etc., mas com certeza mais uma grande história será registrada pelo nosso clube”, acredita.

Mesmo diante de um grupo que a cada semana atrai novos adeptos, a direção estuda estratégias para que os novos membros e seus descendentes permaneçam com a tradição, que em sua essência não passa de uma grande família. Por isso, a grande meta de Geraldini, depois de percorrer tantos quilômetros de história é a de justamente conscientizar as novas gerações da importância da tradição do clube. “Os associados vão ficando com mais idade, a disposição muda e é nesse momento que entram as novas gerações, porque muitos dos que entraram jovens, hoje são casados. Têm associados com filhos pequenos e que acompanham os pais em viagens longas e passeios curtos, enfim. Somos ‘antigomobilistas’: ferrugem na veia; não acaba nunca, nunca cessa, mas sempre vamos longe”.

Logo

Porta

Lateral

Traseira

Rodas

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Conteúdo: Tico Mendes
Fotos: Maurício Martins/Tico Mendes

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Um comentário sobre “Antonio Augusto Geraldini

  1. Sou sócio do Clube do Fordinho e posso garantir que é melhor clube de carros antigos que conheço e o Augusto é gente da melhor qualidade e merecedor de toda nossa confiança. Parabéns Augusto. Carlos Caparroz.

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