Antonio Carlos Batista “Alemão”

A rua é estreita e comprida. No percurso a pé os latidos abafados que escapavam dos portões das garagens interrompiam a quietude na vizinhança. Vez ou outra um carro passava em velocidade reduzida, respeitando os transeuntes. No final da rua, a interseção em “T” dá acesso para uma pequena subida à esquerda ou para uma suave descida pela direita.

Justamente nessa interseção a casa com cactos e outros arbustos plantados em vasos, além dos grafites contornando a fachada do muro se destaca das demais. Em frente, do outro lado da rua, alguns postes marcados por spray de tinta nas cores branca e preta carregam a sigla “O.V.”. Quem é do bairro da Mooca, zona leste de São Paulo conhece o seu significado: “O.V.” é a abreviação do bike club lowrider “Otra Vida”.

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Alemão

Na subida da ladeira à esquerda, no final da viela, outra casa também traz certa singularidade. O portão encostado não desmerece a campainha. Apenas um toque. O rapaz vem na direção do portão e pergunta: “Já falou com o Alemão? Não? Então desce lá que já tô indo”.

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Retornando à primeira casa, as vistas se ajustam de longe ao portão de chapa de aço pintado na cor azul com uma tipografia chapada do nome Otra Vida grafitada. As três batidas ecoam casa adentro: “Alemão!”. Os latidos nos fundos da residência respondem ao chamado. Logo, a chave destrava o cadeado e as correntes se soltam. Num breve momento, a ponta do chinelo empurra o primeiro portão para fora. A luminosidade da rua invade a garagem.

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Portões abertos, retorna para dentro. Encostado na parede esquerda de quem olha de fora, um triciclo repousa cuidadosamente entre algumas bicicletas. Com maestria num espaço limitado, retira o triciclo da inércia e o traz à luz. Totalmente cromado. Elevou a roda direita traseira do veículo, deixando-o parado com certa imponência sobre duas rodas. Esse mesmo veículo possui suspensão a ar.

O rapaz da casa da rua de cima se aproxima. É o Samir, braço direito do Alemão. O ajuda a posicionar mais três bicicletas na entrada da garagem. Uma na cor creme, outra com flake – pintura com pequenas partículas de aspecto metálico – dourado e a última na cor azul. Alemão estende um tapete com o nome Otra Vida e o centraliza na entrada. Sinal verde para a história que viria a seguir.

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Antonio Carlos Batista tem 50 anos, é estilista de profissão e nasceu no município de Presidente Venceslau, localizado a seiscentos e dez quilômetros da capital. Neto de europeu por parte de mãe foi apelidado de “Alemão” ainda pequeno. Antes de vir para a capital, chegou a morar em Presidente Epitácio, também município do estado paulista. Aos nove anos, saiu do interior ao lado da irmã e da mãe e vieram para a cidade grande logo após o término do casamento dos pais.

Em São Paulo, uma tia deu uma força aos três cedendo a casa dela para eles morarem. “Minha mãe veio trabalhar com vendas aqui em São Paulo para sustentar a família”, afirma. O bairro da Mooca foi a primeira moradia de Alemão. Permanecendo até os treze anos de idade, saiu do bairro de origem italiana com a irmã e foram morar próximos do Jardim Europa na casa de um tio enquanto a mãe residia em outro lugar. “A minha família sempre foi muito unida. Na Mooca, eu morava tranquilão com a minha mãe. Depois tivemos que entregar a casa. Ela teve que voltar para o interior e eu fiquei em São Paulo”.

Para não ficar à toa na rua, sem ocupação, Alemão começou a trabalhar desde jovem. Ainda aos treze anos, voltou para a Mooca para ter o primeiro contato com o trabalho em uma oficina automotiva. “Era na Rua Javari e até hoje existe a oficina. Lá, o dono [Sérgio] me ofereceu uma oportunidade de trabalho. Ia pegar as peças com os fornecedores e tal, então comecei a conhecer bastante a Mooca”.

Chegou a morar nos “dois lados” da Mooca. “Um lado era calmo, mas a vizinhança se atentava a tudo ao que acontecia”, diz. No outro lado – no qual vive até hoje -, a consideração e a familiaridade dos vizinhos com Alemão são nítidas.

Chicano

Alemão saiu da oficina tempos depois e foi ajudar os amigos na antiga loja de roupas “Toque e Entre” dentro da Galeria do Rock, no centro da cidade. Teve contato com a cultura chicana pela primeira vez na metade dos anos 80. Estava no dentista esperando ser atendido. Folheou uma revista e viu uma foto de uma matéria que falava da cultura chicana. Arrancou a página e a guardou.

Naquele tempo, o amigo Marcio Shiroma “Murinho” já era antenado no que acontecia lá fora. “O Murinho morava no Japão, chegou a morar em Los Angeles e sempre vinha ao Brasil. Ele era skatista, usava umas bermudas com estampa de vaca de material sintético do Japão. Pô, já era uma parada muito avançada praquele tempo. Nessas vindas, quando ele colou lá na loja, ele trouxe umas revistas e umas paradas da [marca] Dickies. Mostrei a foto da revista e ele se ligou no que eu tava falando, porque ele sabia da cultura de rua lá no exterior”. “Esses daí são os ‘chicanos’. Tem uma parada de exclusão aí”, diria Murinho. Alemão já tinha acesso a algumas informações porque lia a revista “Colors” e fanzines e compreendia que naquele contexto havia uma outra parada.
Nos anos 90 frequentava grandes eventos na capital paulista. Foi em uma dessas festas que teve sua imagem marcada no circuito de moda pela primeira vez. “Eu já usava um visu diferente de roupa, cabeça raspada e tal. Já tinha bastante conhecimento. Vi o Turco Loco [Alberto Hiar, empresário na área de vestuário] passar por mim e curtir o meu estilo. Nesse tempo eu trabalhava com fotografia”, explica.

Em outra ocasião, o reencontro dos dois seria a oportunidade de crescimento para o fotógrafo. “Estava em um desfile quando novamente vi o Turco. Me chamou e disse: ‘Você aqui!? Vem trabalhar comigo’. No dia seguinte eu já tinha uma reunião marcada no escritório dele. Cheguei lá na reunião e ao lado do Turco estava o estilista Mario Queiroz. Fui trampar de assistente do Queiroz porque na época ele fazia as roupas da marca Vision. Trabalhei com ele durante sete anos”. O estilista fazia os desenhos e o Alemão aplicava o próprio estilo em cima. Foi aí que garantiu maior conhecimento técnico em costura e no trabalho com as peças.

O Turco era amigo do Igor Cavalera e decidiram criar a marca de roupas “Cavalera”, em 1995. Com a experiência do trabalho, Alemão participava na produção das roupas da marca estilizando o “C” com as artes baseadas no filme “Os Bons Companheiros”, enviadas ao Brasil pelo Igor. “Eu me ligava nessa parada tipo ‘Poderoso Chefão'”, enfatiza. Se deu bem, a ponto de assinar algumas marcas de roupa pra “Narina”. Os nomes “Blunt” e “Chronic” foram suas criações.

A cultura chicana não saía de sua cabeça. Quando a banda “Suicidal Tendencies” veio ao Brasil se apresentar no evento musical promovido pela marca de cigarros Hollywood, Alemão estava presente. “As informações sobre as gangs e os chicanos vêm do Suicidal Tendencies. No show fui trocar uma ideia com o Mike Muir, vocalista da banda. Mas ele se esquivava para não ceder informação. O cara evitava o assunto. A gente tinha que perguntar se as letras eram histórias verídicas. Os envolvimentos com gangs eram retratados nas músicas’. Através do estudo e de muita pesquisa foi aprofundando na teoria cultural chicana.

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“Chicano” é uma expressão usada para se referir aos imigrantes mexicanos que residem nos Estados Unidos – muitas vezes ilegalmente. No período dos grandes movimentos sociais de 1950 a 1980, os mexicanos também foram às ruas para reivindicar igualdade étnica e de direitos.
Através do Movimento Chicano – ou também conhecido por “El Movimiento” –, a cultura chicana ganhou maior notoriedade, atendo-se principalmente aos valores do próprio povo. Cesar Chavez, ativista político, foi um dos líderes do movimento de 1950 a 1972.

Na capital do estado de Arizona, em Phoenix, a cultura chicana é vigorosamente presente. “Já me perguntaram o porquê de não me inspirar na cultura nacional. Simpatizo com o líder camponês mexicano Emiliano Zapata que lutou pela reforma agrária durante o regime ditatorial do general Porfirio Díaz, no começo do século vinte”. Seria o início da Revolução Mexicana. “Os chicanos prezam pelo trabalho árduo, pela ‘Raza’, pelo orgulho e pela família”, conclui. A cultura chicana transformara a sua vida.

Lowrider

Consequência da cultura chicana desde as primeiras décadas do século vinte, o lowrider é o principal meio de locomoção dos adeptos nas cidades.

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O artigo “Chapter 1 Lowrider History Book” publicado no site “lowrider.com” explica o conceito. “Os bairros mexicano-americanos – chamados de “barrios” -abrigavam diversos modelos Woody Wagon da marca Chevrolet, do Leste de Los Angeles à El Paso, no Texas, em 1930. Os veículos eram rebaixados estrategicamente na parte traseira com sacos de areia escondidos ou com o encurtamento das molas da suspensão. Os veículos rodavam a uma baixa distância do asfalto. Era a moda entre os jovens de todas as culturas que exibiam o estilo ‘Zoot Suit’”. A vestimenta dos homens era composta por “tacuche”(palitó), “lisa”(camisa), “resortes”(suspensórios), “cadena”(corrente), “drapes”(calça), “calcos”(sapatos) e “tando”(chapéu). As mulheres usavam calças ou vestidos longos, salto alto, maquiagens, penteados e acessórios. Quem seguisse o estilo seria identificado como ”pachucos” – os homens – ou “pachucas” – as mulheres.

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a economia norte-americana cresceu atraindo mão de obra de outras regiões, principalmente do Norte do México. Esses novos imigrantes gostavam dos veículos que tivessem mais velocidade. Alteravam a estrutura do carro no intuito de diminuir o peso, além de retirarem os para-lamas e o teto.

Já os pachucos preferiam a estilização. No passar das décadas, a estilização foi se aperfeiçoando e o nome também: “hot hods”; “joined by lakesters”; “street rods”; “roadsters”; “customs”; “cruisers” e, finalmente, “lowriders”, a partir de 1960. Posteriormente, as modificações nos carros contariam com kits hidráulicos de suspensão que possibilitariam ao condutor “pular” com o carro, suspender ou rebaixar o chassi ao chão ou dirigir sobre três rodas. Pintura no motor e na funilaria é um dos elementos estéticos presentes nos veículos. O modelo Impala – também da Chevrolet – se tornou o favorito entre os integrantes dos car clubs.

A essência do lowrider é totalmente positiva. “É o cara preparar o carro para sair com a família aos finais de semana. Ele, a esposa, os filhos, o cachorro e a cesta de piquenique. Só que a diferença é que eles estarão dentro de uma obra de arte que anda”, afirma Alemão. Nos anos 80 e 90, muitos lowriders andavam armados porque dentro dos clubs tinham envolvidos com gangs. Isso não se permite mais. “Muitos trouxeram problemas para os car clubs, mas hoje o cenário é diferente. Na época os rappers usavam carros lowriders nos clipes das músicas. Cheguei a ter medo da cultura ser deturpada. Com as bicicletas nem tanto. A influência chicana é mais forte”.

Antes de fundar o Bike Club Otra Vida, há 17 anos, Alemão participava ao lado do amigo Tatá no “SouthEast Car Club” – nome criado pelo próprio Tatá – que ficava na Rua Juventus, na Mooca. O Sérgio “Japonês” já representava o “New Mafia Car Club” no Japão. “Fui com o Tatá para os Estados Unidos visitar uma feira lowrider em Miami, Los Angeles. Garry, um amigo nosso disse que os participantes achavam que éramos de lá. Falei que não, que vínhamos do Brasil. Ele disse que se o nome do car club fosse em português ou espanhol teríamos maior notabilidade do nosso trabalho”, afirma.

As bicicletas também fizeram parte da história lowrider. Há relatos de que a primeira bicicleta modificada apresentada ao público tenha sido o modelo Schwinn Stingray, customizado pelo designer George Barris para a série “The Munsters” (1964-1966) transmitida nos Estados Unidos.

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Otra Vida – Nacimiento

Alemão tinha duas bicicletas importadas guardadas em casa. Foi entre 1994 e 1995. Uma era do filho e a outra dele. Desde a primeira vez que o Murinho trouxe as informações sobre os chicanos, já sabia qual estilo lowrider seguiria. Sempre pedalou. Partia de um ponto perto da Ceagesp – região na qual residiu  – e pedalava até a Galeria do Rock. A relação entre o valor da customização dos carros e das bicicletas são diferentes. Por isso, passou a trabalhar com o que tinha na mão.

A primeira fase foi escolher um nome. “Tinha o nome ‘Vatos Locos’ que em português significa ‘Vida loca’. Todo mundo falava: ‘põem o nome Vida Loca’. Aí falei: ‘não, vamos com outro propósito’. O que me inspirou a criar o nome Otra Vida foi quando li a obra ‘Emiliano Zapata: El Amor a La Tierra’. Tinha um trecho que contava: ‘em outra ocasião, Zapata fumava lentamente um bem puro’. Já levei pela malícia [risos] aí pá: ‘Otra Vida’. É um nome muito forte. Tudo é Otra Vida. Tem encaixe em tudo: pro cara que se foi, pro cara que tá, pro cara que… O que imponho é: ‘Otra Vida pra uma vida bem vivida sempre’. O lance é positivo. Quando eu estava trazendo a cultura falei pro Murinho: ‘Porra, violência aqui a gente tem de sobra’. O Rio já explodia àquela época. O Otra Vida vem nesse sentido. Tem muita gente querendo entrar justamente pela proposta”, enfatiza com veemência.

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No começo do “Otra Vida”, Tatá ficou ao lado do Alemão, mas depois seguiu o próprio caminho fundando o “Vida Real Car Club”.

Otra Vida – Atuendo

Em seguida, com toda a sua experiência no mercado têxtil e de confecção, subiu a marca “Otra Vida Roupas” para difundir a história do bike club no Brasil. Por todo o país, as famosas camisetas “Otra Vida” são vendida em lojas que simpatizam com a cultura chicana. Quem pensa que as camisetas são apenas vestuário, certamente passará vergonha na rua. Todos os desenhos trazem uma intensa carga simbólica sobre as malhas. Alemão utiliza elementos do universo chicano e do bike club, além de estampar a própria história de vida.

“Um exemplo: eu trato tanto a importância do Emiliano Zapata e seu grito pela reforma agrária, quanto os meus cachorros que se foram: a Zira, o Zapata e a Zara – pai, mãe e filha. Então eu retrato nas estampas os meus sentimentos por eles. Teve um dia… né Samir [olhando pra ele] que o cara estava bebendo no bar, sentado, e viu outro usando a camiseta da [cachorra] Zara. Aí foi abordado porque o outro não conhecia ele: ‘Aê, eu conheço essa cachorra’ [risos]. Foi uma confusão no bar e o cara da camiseta me ligou: ‘Alemão, é você mesmo?’ ‘Sou’. ‘Ow, o seu amigo é doidão hein, queria que eu conhecesse a cachorra e pá [risos]. Então através do nome Otra Vida eu conto a cultura chicana pelas roupas e também sobre a minha família, das coisas que eu acho importante no dia a dia. Nos encontros que fazemos ao ar livre, sempre tem gente usando as camisetas e que pedem pra tirar foto com a gente. O carinho é muito grande”.

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A bicicleta do Alemão tinha passado por um upgrade no início do bike club e aí as coisas começaram a se encaixar. “Eu ia pro [parque] Ibirapuera com ela, ia pra todos os cantos sempre pedalando. A cultura chicana passou a fazer maior sentido na prática”. No decorrer dos anos, novos adeptos surgiam a ponto do nome “Otra Vida” se tornar conhecido nos Estados Unidos.

Otra Vida – Bike Lowrider

“Fui com o meu amigo e fotógrafo Max para os Estados Unidos. Tínhamos um amigo em comum em L.A. chamado ‘Tul’, fundador do ‘Chain Gang’. O Tul queria me apresentar o Pele Carnales que era de Phoenix, do Arizona pra conversar sobre o Otra Vida. Só depois de quatro anos que fui conhecer o Pele; pessoa ímpar, que abriu as portas da casa dele enquanto estive lá. Fiquei na casa dele ao lado de sua família. Hospitalidade sem palavras. Inclusive ele virá ao Brasil em maio deste ano pra conhecer o Rio de Janeiro.  O Pele queria abrir um Otra Vida lá em Phoenix e dei permissão. Foi inaugurada em 2007. Hoje, o Otra Vida conta com 50 integrantes no Arizona. Aqui no Brasil são quinze e têm mais quinze querendo entrar”.

Gradualmente, conseguiu implantar e transmitir um nome com força, atrelado a valores e boa conduta. “Otra Vida é antiga, atual e eterna. Buscamos referência lá de trás, trabalhamos sempre em grupo. Qualquer grupo que venha conversar temos o maior respeito e muitos falam que somos referência para quem tá começando na cultura chicana e no bike lowrider.”, afirma.

Em 2014, o canal pago “Discovery Channel” apresentou uma temporada de treze episódios envolvendo o “Vida Real Car Club” e o “Otra Vida” no formato de reality show chamado “Lowrider Brasil”. “Achei que foi positivo o programa para mostrar à sociedade uma cultura que é antiga, mas nem todo mundo conhece. Senti que teve amplitude nos dois segmentos lowrider. Os irmãos Kane que trabalham com importação, vieram aqui no Otra Vida na época do programa e ajudaram a importar umas bikes pro Brasil”, ressalta.

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O investimento com a modificação das bikes foi gradual também. A participação de todos no trabalho é preponderante para o sucesso do Otra Vida. “Às vezes o cara tem a ferramenta, mas não tem a matéria prima. Quem tem, empresta pra quem não tem. O Cedric da empresa EvoLux , os irmão Kane e o Edson – que fornece as peças pra nós – foram muito importantes para o crescimento do Otra Vida.
Não adianta o cara ficar falando: ‘Pô, vou trazer a bike’. Não adianta ficar só falando, tem que fazer, tem que agir, se dedicar, pois montar a bike comprando peça por peça é bem diferente de comprar uma já pronta. Você participa do trabalho da sua bike, vê a pintura, a estilização, os acessórios. Passa a dar valor à sua conquista. É um trabalho em parceria, em conjunto, com união. Algumas coisas a gente põem a nossa mão do jeito que a gente quer fazer. Trabalhamos sempre em grupo. ´Quando o Samir fala que a bike tá pronta eu vou lá ver. ‘Tá pronta aonde, Samir?’ Sempre falo que a gente procura não achar o que a gente não quer ver na nossa bike.
Sou chato. Aí o Samir vai lá e pá. O trampo é minucioso e o resultado sempre melhor. Pedalar é bom, faz bem pra saúde, mas pedalar com estilo é melhor ainda”.

Se o dono de uma bicicleta francesa chega na garagem do Alemão, Samir desce da casa dele pra analisar o veículo. Os dois discutem o projeto. “’Vamo filetá’, vamos pintar, vamos espelhar. ‘E essa mesa?’ ‘Vamos colocar uma mesa mais arrojada? Mais style?’ ‘E esse banco? Pelo amor de Deus!’. Então aí vem. Parece simples..” [Samir emenda na conversa] “E aquela restauração que entregamos na semana passada?” “Puta que pariu…puta que pariu…uma Caloi 73…ela era tão espetacular que aqui na loja não tem nenhuma peça que se assemelhasse. O modelo era Caloi 73, verde-retrô-calcinha, com a cor creme dentro, gritando mesmo…você não tá entendendo. Mas esse aqui [apontando pro Samir] esculachou. Tirou os adesivos e transformou tudo em pintura. Sem relevo”, detalha Alemão.

O cabeça pelas estilizações das peças e das bike lowriders do Otra Vida é Samir Tomazetti, 40 anos. Antes de fazer parte do bike club, Samir trabalhava numa gráfica, passou para uma firma de equipamentos para laboratório e depois começou a mexer com bicicletas. Mesmo nos trabalhos anteriores, curtia desenhar e pintar. Caiu de cabeça na arte. Nesse tempo conheceu Alemão. “Eu conheci o Alemão e foi um “link” só. Faz oito anos. Sou membro do Otra Vida há uns quatro anos. Teve o tempo de conhecer os outros integrantes do bike club, depois veio a aprovação. Foi mais ou menos assim. O Otra Vida significa um estilo de vida ‘total’, né. Me dedico o máximo possível ao bike club Otra Vida. É vinte e quatro horas. É ‘fulltime’”, explica Samir. Para ele, existe um reflexo das pessoas nas bicicletas. “A bike pra mim representa a personalidade de cada pessoa. O cara vai representar o que ele é na bicicleta dele. A pessoa chega aí e vai montar do jeito que ela quer. O processo final vai ficar a cara do dono da bicicleta”, opina.

Do início do trabalho até a entrega do veículo, o processo dura em média seis meses. Do começo ao fim. É totalmente artesanal. “Temos também os amigos nossos que fazem os quadros, os garfos, fazem guidão…” [Alemão emenda] “O ‘BeeGees’ da empresa EvoLux fez essa capa-corrente no formato do fuzil Kalashnikov com corte a laser. Eles e nós temos esse modelo para vender”, ressalta. [Samir finaliza] “Então cada integrante e parceiro colabora no desenvolvimento das bicicletas. Se vai pegar uma bike, a primeira coisa de tudo é se dedicar à sua bicicleta, tem que ter critério, ter postura, não deixar qualquer um sentar nela”, aponta.

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“Santeria”

A disciplina rege o Otra Vida. Se o cara vacilar ele é expulso do club. Isso vale para todos, até para o fundador e diretor Alemão. A conduta não se limita apenas com as bikes lowriders, mas também nas ações dos integrantes, seus comportamentos e no padrão de vestimenta adotado. Impreterivelmente, os membros devem usar uniformes ou peças de roupas com as cores branca, bege ou preta. Depende das condições do tempo. Isso vale tanto para os encontros mensais no Memorial da América Latina, na Estação da Luz ou nas reuniões internas do club.

Geralmente é camiseta branca. Bermuda ou calça bege. Em outros casos, camisa branca e bermuda preta. É importante manter um padrão estético a fim de garantir igualdade entre todos e passar a noção de organização. No dia da visita, Alemão usava uma camisa com um desenho de um homem ao lado direito do peito.

Questionado sobre o desenho, Alemão explica o motivo de terem tantas reproduções do homem em bandeiras, camisetas, bonecos e na própria camisa. “Quando viajei pela primeira vez para Los Angeles com o Murinho, fomos para El Segundo, um bairro composto por chicanos. O Murinho disse que do outro lado da rua havia uma ‘Santeria’ e falou pra eu comprar uma Virgem de Guadalupe para me proteger”. Santeria foi uma expressão pejorativa usada pelos espanhóis durante a colonização diante da extrema devoção de santos pelos escravos, além de um sistema de crenças que une a religião católica e Iorubá, africana.  “Atravessei a rua e entrei no estabelecimento. Tinha uma mulher no balcão e me perguntou de onde eu era. Respondi que era de São Paulo. Ela falou: ‘O seu santo é Jesús Malverde e sua santa é Guadalupe'”.

Jesús Malverde, ou também conhecido por Jesús Juarez Mazo foi considerado santo após sua morte na época da ditadura de Porfírio Díaz, no México. Popularmente é chamado de “o bom bandido”, “o santo dos traficantes” e “herói dos pobres”. A Nossa Senhora de Guadalupe, ou popularmente chamada de “Virgem de Guadalupe” é a padroeira do México e “Imperatriz da América” e sua festa é celebrada no dia 12 de dezembro.

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Na garagem, imagens de Guadalupe por toda parte ao lado de Malverde instigam o visitante a olhar os detalhes das decorações. “Vamos descer lá em casa”, disse Alemão.

Respecto

O cachorro branco – da mesma raça reproduzida nas camisetas – late e corre pelo corredor enquanto Alemão abre a porta da casa. A escada dá acesso para outro ambiente. A imagem de Guadalupe fixada na porta abençoa quem entra. No interior, na sala de estar, a paisagem é impressionante: dezenas de reproduções de Guadalupe enfeitam o cômodo. Armários e prateleiras abrigam miniaturas alegóricas de santos, cenários de barrios, bonecos chicanos com expressões  desesperadas, fotos de familiares para serem protegidos em preces, posters de filmes de máfia e quadros com fotos de amigos e familiares ao lado de bicicletas e carros lowriders espalhados pelas paredes e por fim o Gato Félix, do desenho animado. “Tinha uma loja de carros em L.A. e o dono era um chicano que vendia carros para outros chicanos. Ele confiava nos caras. O nome dele era Félix e usou o desenho do gato como logo da loja”, conta Alemão.

Em cada parte da sala e do quarto o anfitrião conta uma breve história dos momentos vividos nas épocas do descobrimento da cultura chicana, de quando iniciou o Otra Vida e dos projetos realizados para marcas de roupa – exemplo da atual MCD.

As projeções de Alemão daqui pra frente são positivas. “Daqui a quatro anos as bikes vão dominar a cidade. Vejo muita gente indo trabalhar pedalando. As ciclovias não sairão mais. No Metrô, tem que ter um vagão só pras bicicletas. Se o cara mora em frente a uma ciclovia e vê um buraco no chão, ele pode simplesmente tapar aquele buraco porque muitas vezes a prefeitura não irá lá, a verdade é essa. O Edson que vende as peças, disse que o número de bicicletas vendidas chegou a 50%. Tem muitas famílias que saem juntas pra pedalar. Tem a parada dos roubos que sempre existiu. Tem a parada da noção de mobilidade urbana pela população e vem se ampliando, se atualizando. Então é por aí, esse é o caminho”.

Comportar todo o universo do Otra Vida exigirá, em breve, novas instalações. Ou melhor, transformações: “Que tipo de colheita é essa? De plantio anterior. Então assim, vivo de aluguel, tudo o que eu pude eu dediquei ao lowrider, a cultura mesmo. O meu sonho é ter a ‘House of Lowrider’, com tudo isso que eu tenho aqui dentro, apresentar toda a história do club, contar histórias das visitas de celebridades gringas [Alemão se refere ao cantor estrangeiro Spanky Loco que gravou um videoclipe na porta da garagem em 2016] para que as pessoas possam vir comer, beber e conhecer toda a história da cultura chicana e do Otra Vida, ou seja, terem acesso às informações no próprio ambiente. São coisas que vão ficar pro resto da vida. ‘Ah, tem a internet? Legal’, mas e se atualizarem a internet? O livro permanecerá em suas mãos”, acredita.

A conversa ia longe. Alemão tem muita história para contar. De tudo o que foi apontado pelo fundador, uma frase poderia resumir perfeitamente a força do caráter presente na sua vida e na filosofia do clube: “El Respecto No Se Puede Comprar” – extraída do perfil Otra Vida de Phoenix, no Instagram.

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Narrar
texto: Tico Mendes
fotos/teaser: Maurício Martins/Tico Mendes

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2 comentários sobre “Antonio Carlos Batista “Alemão”

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