Feliphe Veiga

<< O seguinte post foi publicado em outra data e em outro lugar. Aqui no WordPress, seguirá na íntegra >>

Os pastéis afundavam na panela com óleo. A efervescência da fritura propagava no lugar. Três minutos para serem retirados e servidos em pratos de plástico. É comer rápido e sair. Sem delongas.

A rua onde situa-se a pastelaria é composta em sua maioria por bares e lanchonetes. Após a construção de uma faculdade o comércio cresceu. O movimento à noite é intenso. Em poucos anos, tornou-se um pequeno pólo corporativo abrigando também uma empresa de call center.

O estabelecimento no qual os pastéis são fritos encontra-se no piso térreo de uma pequena edificação. A fachada é comum. Difícil chamar atenção. Não há letreiros ou placas informativas. Apenas um interfone na entrada, mas sem a descrição das salas. O acesso para o interior do prédio é pela porta ao lado do estabelecimento. O estúdio de tatuagem fica no ultimo andar.

Com a nossa chegada, depois das dezoito horas, a porta marrom se abre: “Boa noite!”, diz Bruna, a responsável pela agenda do estúdio. Adentro, o ambiente é moderno e com textura de cimento nas paredes, transmitindo um aspecto “fabril”. Uma escada divide a recepção e a sala de estar do primeiro andar, onde os artistas realizam seus trabalhos. As poltronas são iluminadas com softboxes – equipamentos para iluminação em estúdios de fotografia que suavizam a luz direta – e lustres de alumínio suspensos em tubulações de aço.

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As janelas são grandes com um espelho bem ao centro da parede. Há painéis com pinturas fixas e prateleiras com tubos de tintas nas mais variadas tonalidades. No andar superior um sofá vermelho torna-se extensão do bar. Enquanto os futuros tatuados relaxam nas poltronas, cervejas e petiscos são apreciados por quem observa lá de cima a arte surgir. Cena de espetáculo.

Por trás deste universo paralelo  projetado para  concretizar memórias e sentimentos nas peles das pessoas, Feliphe Veiga se programa para o próximo trabalho.  É recorrente a escassez de horários para uma sessão com o tatuador e idealizador do espaço. Caso ainda não possua uma tatuagem ou esteja se preparando para a próxima, a história a seguir trará uma visão particular do artista, narrada entre as goladas de cerveja no True Rise Tattoo.

Veiga tem 26 anos. Tatua há dez. Seus cabelos são curtos e veste roupas escuras. A camiseta manga curta expõem os mais variados desenhos nos braços. Na região da garganta, carrega o desenho de um elefante com as orelhas na forma de asas de mariposa. Praticamente todo o corpo é tatuado.

A  tatuagem o acompanha há tempos. Convidado pelo próprio tio para aprender a arte num antigo ateliê localizado em Itaquera, zona leste da capital paulista, Veiga, com 15 anos de idade na época acreditou na oportunidade que teria ao lado de um familiar. “Sempre desenhei, desde moleque. Meu tio tinha um ateliê onde a gente morava e fui aprendiz dele. Fiquei ao seu lado até os meus dezoito anos. O meu primeiro trabalho foi justamente na própria pele dele”.

Após os três anos de estudo, decidiu sair do ateliê. O tio passava por alguns problemas pessoais e teve que se ausentar por um tempo, o que talvez interferiria no desenvolvimento profissional do sobrinho lá na frente. Com o dinheiro que entrou no ateliê, Veiga separou a parte do tio e o entregou à esposa dele.

A saída do ateliê não desmotivou o jovem.

“Fui trabalhar em uma empresa de telemarketing, entre 2010 até o final de 2012. Consegui crescer lá dentro, assumindo o cargo de coordenador de excelência de atendimento. Eu aplicava treinamentos aos funcionários. Meu objetivo era trabalhar para juntar dinheiro e montar meu próprio estúdio”, afirma.

O call center onde Veiga trabalhou fica na mesma rua do estúdio. “A empresa que eu trabalhava abriu uma filial aqui na Vila Prudente. Vim pra cá e tinha uma sala disponível nesse prédio. Resolvi alugar a sala sozinho para trabalhar nos meus tempos livres.  Minha mãe não sabia do meu projeto e mesmo assim fui levando”. Entre os espaços de tempo do call center e da abertura da sala, tatuava na casa do próprio cliente. Um tipo de “personal tattoo”. A sala foi aberta em 2013 quando decidiu sair do call center e se dedicar exclusivamente para a arte. “Sala pequena no primeiro andar. Depois conheci outro tatuador e passamos a ter bastante procura e o volume de clientes não comportava nas instalações do espaço – o ar condicionado quebrava, o espaço era pequeno e outros probleminhas dificultavam o nível do trabalho que estava superior ao local”, explica.

Depois de cinco anos tatuando, Veiga decidiu investir ainda mais no projeto fundando o True Rise Tattoo, atual estúdio. “Nunca vi a tatuagem como forma financeira, como objetivo de ganhar dinheiro, ficar rico. Fiz porque gosto. Vejo que lá no início quando eu tatuava na casa das pessoas e hoje com a True Rise, o que rolou foi um crescimento pessoal. Comecei a valorizar cada vez mais a arte e o que ela significa pra pessoa. Você já pensou que a pessoa dá o antebraço dela pra você tatuar? Que é a parte que ela mais verá na vida dela? Você consegue mensurar a importância do seu trabalho e a confiança dela por você? Se for uma experiência negativa ela sempre se lembrará de você de uma maneira negativa. Tem o lance da energia também. Então o lance da tatuagem é muito mais profunda do que as pessoas imaginam, muitas vezes de forma superficial, mas tão profunda quanto a aplicação da tinta na pele em relação à experiência que ela tem e a confiança que ela deposita no artista”, ressalta.

Continua: “hoje eu tento trazer essa noção da forma mais significativa para as pessoas, tanto que os clientes que tatuam comigo têm uma visão artística mais apurada. [A capital da cidade de] São Paulo ainda é o centro dessa pluralidade e diversidade cultural”, aponta. Veiga analisa a mídia como uma grande veiculadora de informação e que colaborou para a disseminação da arte e o rompimento de barreiras estéticas dentro da sociedade: “Dez anos pra cá, vejo que a tatuagem saiu do ‘submundo’ e está na vista de todo mundo, não importando a sua classe. O negócio da tatuagem é tão sério que diversos agentes colaboram para o aperfeiçoamento do mercado, partindo da mídia, das empresas que fabricam equipamentos e materiais e dos próprios artistas que se ligaram que não é apenas um desenho, mas uma forma de protesto e que há sentimentos e lembranças que falam mais alto. Tem a parada da estética, mas subconscientemente falando, as memórias da pessoa – cliente – e outras particularidades ficam marcadas na pele.

Por mais comercial que a tatuagem se mostre, uma carga emocional da pessoa falará mais alto, valendo a arte, o estúdio e o próprio tatuador colaboram para isso”.

Dez anos atrás os artistas tinham poucos meios para estudarem referencias e técnicas. Limitavam-se às revistas e bibliotecas. “Hoje o tatuador carrega mais informação e conhecimento. Para ter conhecimento da história de determinado tatuador, as revistas especializadas publicavam entrevistas, trajetórias  e demais informações de determinadas técnicas”.
O tatuador pode mostrar a intensidade do trabalho usando mais pressão na pele, nas linhas, no peso das sombras, na pigmentação das cores que ele vai usar. Ele transmite o sentimento dele, a interpretação dele, ocorrendo uma certa ‘conexão’ entre cliente/artista”.

Veiga é artista autoral há um ano. “Eu tinha um [perfil no] Instagram com 1.500 fotos. Exclui praticamente todas, deixando 100 fotos com todos os meus trabalhos autorais para direcionar a minha linha de raciocínio. Adotei o ‘Sketch’ [esboço] como se fosse o primeiro rascunho. É um trabalho mais ‘sujo’, com linhas de demarcações, linhas aleatórias; ‘construção e desconstrução’ da obra. Quando eu desenhava enquanto criança, não gostava de terminar o desenho. Sempre gostei do rascunho e acredito que ainda carrego essa essência”. Os colaboradores também tatuam obras autorais. A liberdade de expressão é muito maior. A questão “estilo”, leva tempo.

“Quando você deseja pela primeira vez, muitos tatuadores se perguntam qual é o estilo que segue. Tem trabalhos que não gosto de usar cores. Tem trabalhos que gosto de usar um ou dois tons, tipo preto e vermelho. Gosto dessa combinação. Dá um impacto forte sem ser pesado. Trabalhei muito tempo com aquarela. Hoje, não estou mais nessa fase. Cada artista passa por diversas fases que envolve a experiência de vida do artista também”.

A exclusividade é um ponto importante para Veiga. “Muitos clientes procuram desenhos já elaborados. Às vezes recuso trabalhos assim. Se você me passar a sua ideia e não conseguir visualizar dentro do meu estilo, prefiro não realizar. Será um processo cansativo e não alcançarei o resultado esperado por mim, e só o cliente vai sair satisfeito. O processo é uma troca: ’50/50′, onde divide-se o todo e as duas partes terão que ter sincronia, antes, durante e depois do trabalho. Não acho justo tatuar uma pessoa durante seis horas e eu não me sentir satisfeito. E vice-versa. Tem que ter satisfação de ambas as partes. Atualmente busco um trabalho que seja relacionado ao meu nome. Comparado a quem exerce a literatura, as artes plásticas, a pintura, ou quando alguém escuta uma determinada obra e logo associa ao artista. É a busca de todo artista que carrega em suas obras a própria assinatura”.

Um outro detalhe interessante é que Veiga é daltônico. Para ele a condição visual não se tornou um problema. Pelo contrário. Suas pinturas não deixam de trazer a qualidade que tanto busca, a ponto de passar despercebido para o cliente. Só quem o conhece sabe. “Sou daltônico e trabalhei muito tempo com cores. Tenho que saber o nome das cores nos tubos. Valores tonais eu sei; claros e escuros, mas hoje me sinto cansado de trabalhar assim. Procuro no meus trabalhos o uso de outras cores. Se preciso encontrar um determinado tom, peço ajuda pro pessoal. Descobri o daltonismo ma escola aos sete anos, quando pintei o personagem ‘Saci’ [do folclore brasileiro, que é representado na cor preta] de verde. A professora pediu para a minha mãe fazer um teste comigo, mostrando os lápis de cor. Aí constatou-se o daltonismo. Naquela época os lápis de cor não tinham nome, só depois que a Faber Castell lançou uma caixa com os nomes das cores. Já tinha dez anos de idade. Talvez tenha sido ruim para mim, por me condicionar aos nomes. Não sei como seriam os trabalhos sem saber os nomes das cores”.

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Alguns testes foram feitos por Veiga. “Já fiz desenhos pegando um já pronto e desenhando com as cores que eu achava no meu ponto de vista mais bonitos. Pra mim, ficaram iguais. Enxergo as cores, mas eu troco algumas: o que é verde, vejo marrom; o que é roxo, pode ser azul; o que é amarelo, pode ser verde; lilás eu não enxergo, porque para mim é cinza. Rosa também é cinza; tons de vinho são marrons. Por isso que eu falo que o meu mundo é marrom. A árvore é marrom”, explica.

A inauguração do True Rise Tattoo foi em fevereiro de 2016. No dia da abertura do estúdio, Veiga programou um “Flash Day”. “O flash day sempre existiu. Foi a partir das tattoos ‘oldschools’ – precursor da popularização das tatuagens no mundo. Para quem nunca entrou num estúdio ou talvez queira fazer a primeira tatuagem, o flash day é uma boa oportunidade. Lá, a pessoa conhecerá a rotina dos profissionais. Se tem medo da agulha, pode perceber a quantidade de homens e mulheres aguardando na fila para ter a chance de adquirir uma obra de arte na pele. Inclusive, o valor dos desenhos são mais acessíveis porque se o mesmo desenho não tiver sido tatuado nos dias normais, ele pode ser usado no flash day e o valor pode chegar à metade do valor original, sempre mantendo a qualidade do trabalho.

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“Para quem não tem tatuagem posso dizer o seguinte: Pesquise com qual artista fará a tatuagem. Qual o estilo de trabalho, como funciona a cicatrização, o que um estúdio precisa ter para ser um ambiente seguro – tipo a higiene, as agulhas, as tintas, as procedências, etc. -, o que o artista precisa ter para o seu gosto’. Tudo isso deve ser levado em consideração”, orienta.

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Feliphe Veiga durante trabalho.

Antigamente, as pessoas iam ao estúdio, tiravam o desenho do quadro que gostaram e tatuavam. Eram as ‘flash arts’, desenhos pequenos e rápidos de serem feitos. Cada estúdio segue uma linha diferente, ao modo tradicional também. Aqui no True Rise os desenhos do flash day são  tatuados apenas uma vez. Não há repetições. Isso colabora para o crescimento dos trabalhos autorais e para o próprio profissional por que poderá apresentar ao publico o tipo de trabalho dele, como um portfólio do estilo que ele gosta de seguir. São temas exclusivos ou temáticos. Não acho legal repetir tatuagens. É autoral. É singular. Por trás do evento, seguimos um conceito e nos baseamos nele para realizar o flash day. Já fizemos da franquia ‘Star Wars’, Halloween, Primavera, o aniversário de um ano que foi recentemente”.

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Camila Rocha Baeta, 27 anos, esteve presente no flash Day de aniversario do estúdio no dia 11 de março. “Conheci o flash day em outros estúdios, mas nunca participei. Essa é a minha primeira tatuagem. Desde os quatorze anos sempre quis uma. Só agora consegui convencer os meus pais [risos]. O meu gosto é old school e fiz essa andorinha [apontando para o mural com a flash art indicando ‘já feito’] em preto e branco. Tenho vitiligo e achei interessante o nome ‘True Rise’ porque é um ‘levante’, indo atrás das coisas que eu quero fazer.

 “O estúdio é a realização de um sonho. As pessoas não podem deixar de acreditar nelas mesmas. Ao invés de focarem as forças exteriores, busque as forças interiores, a força vital que garantirá alcançar o seu objetivo em qualquer campo. Superar dificuldades com sabedoria”, conclui o artista.

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