Hijaz Brasil

Texto e Fotos: Tico Mendes

Chovia em Damasco. Naquela manhã de quinta-feira, o jovem Shadi Alahmad acordara disposto a lecionar piano aos alunos de uma escola próxima de sua casa. Shadi sempre desejou ser professor de música e graças ao apoio do próprio pai – que é ator e músico – conseguiu realizar seu tão sonhado objetivo.

A música e a arte foram os pilares de sustentação para que a família de Shadi permanecesse firme diante dos problemas vividos pelo país localizado no “coração” do Oriente Médio: a Síria. O país foi palco de diversas transformações durante a sua história. Vários povos de diferentes culturas ocuparam a região, na qual fora dividida entre os impérios Persa, Romano e Macedônio, no período de 661 a 750.

Séculos depois a região é dominada pelo Império Turco-Otomano [1299 a 1923], regido por Osman I, nômade e líder turco islâmico. A dominação na região durou aproximadamente quatrocentos anos, tendo fim durante a Primeira Guerra Mundial em razão do espírito nacionalista árabe que crescia contra os turcos. O xerife [príncipe] Ali bin Al-Hussein de Meca liderou a campanha defendida pelo Reino Unido. Damasco fora retomada por Faiçal I, filho de Hussein em 1918.

A promessa do Reino Unido de conceder território ao povo árabe após a queda do Império não é cumprida. Através do acordo Sykes-Picot entre Reino Unido e França, o Oriente Médio é dividido e a concessão de poderes sobre a região da Síria e do Líbano é transferida para a França. Somente em 1946 a Síria teria a sua independência.

Décadas seguintes golpes militares, alianças com a União Soviética, perda de território e guerra civil no Líbano atraem os holofotes para o país. Desde 1970, a região é governada pela família al-Assad.

Em 2011, uma onda de protestos em países da África e Oriente Médio corroborou para a queda de governantes na Tunísia, Egito e Líbia. Após protestos na cidade de Deraa, a cerca de cem quilômetros de Damasco, o país se viu na obrigação de exigir maior democracia por parte do governo. Sem sucesso. Consequentemente após forte represália interna, milhares de sírios deixaram seus empregos, famílias e moradias em busca de segurança fora do país e do continente.

Política é um tema que Shadi evita profundidade, embora tenha transmitido mensagens de paz quando esteve no Líbano até inicio de 2017. Durante sua estadia, Shadi formou uma banda árabe e com repertório tradicional e estrangeiro. Sempre visando positividade e amor às suas raízes. No Brasil, não seria diferente. Chegando ao país, o músico fez amizades que o ajudariam a continuar no cenário artístico. A ideia de fundar a Hijaz Brasil traz significados importantes para ele. “É em homenagem à cidade de Hejaz. Mas popularmente é conhecida por Hejaz Railway, antiga estrada de ferro que ligava a cidade de Damasco à Medina através da região de Hejaz da Arábia Saudita”. Essa ferrovia era parte otomana e tinha por objetivo alcançar a cidade sagrada de Meca. Porém, as construções foram interrompidas devido a Primeira Guerra Mundial, faltando quatrocentos quilômetros de linha até Meca. Entre Damasco e Medina são mil e trezentos quilômetros de ferrovia.

Hijaz Brasil

Presentes no cenário artístico e gastronômico paulistano, a banda se apresenta em um famoso restaurante localizado no bairro de Moema, zona centro sul de São Paulo: o Farabbud, fundado em 2002 por descendentes de sírios e libaneses. Um ponto que atrai a comunidade árabe nas noites da cidade. Outro lugar é o Al Janiah, na Bela Vista, restaurante e bar fundados por descendente de palestinos e que contrata refugiados. A Hijaz Brasil mistura elementos árabes, turco, grego, iraquiano antigo e brasileiro.

Thiago Linhares, 32, é o percussionista da banda. Baterista com diversos projetos entrou na Hijaz há quatro meses. Sua família é de origem árabe por parte de mãe. Para trazer o ritmo dançante nas músicas Linhares utiliza um Cajón [também conhecido por Tamburetizim], um tipo de percussão usado pelos escravos africanos na época do Peru colonial. Impossibilitados de tocarem seus instrumentos em razão de seus feitores, os africanos improvisavam as batidas de suas canções com gavetas e caixas de madeira. É um instrumento afro-peruano. Assim que conheceu a banda se identificou, porque considera a cultura árabe muito importante ao país. “Conheci a banda através do Pedro Terra. Vinhamos trabalhando juntos em outros projetos quando ele comentou da Hijaz. É um trabalho muito importante porque apresenta a cultura árabe em um momento tão delicado, onde muitas coisas negativas ocorrem naqueles países. O Brasil é um país que mesmo com tantas dificuldades, consegue absorver coisas boas.
Antes a banda usava a bateria eletrônica do próprio teclado de Shadi, mas em razão de sua sonoridade artificial, fui indicado para dar um novo toque sonoro – mais humanizado. Com o Cajón, consigo proporcionar mais ritmo e com levadas mais experimentais. Inclusive estou estudando novas possibilidades de percussão. A Hijaz é uma banda experimental, totalmente sem limites. Então pretendo aplicar novas batidas.”, afirma.

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Pedro Terra, 27, conheceu Shadi pouco tempo depois deste chegar ao país.
Pedro é violonista e segue com outros projetos paralelos também. Professor de música, rapidamente se identificou com Shadi pela formação de professor – Pedro dá aulas em escolas particulares – e viu a oportunidade de criação da Hijaz como um novo estilo musical há seis meses. “Começamos a ensaiar e consequentemente novas oportunidades de apresentação surgiram. Como faltava uma parte rítmica importante, convidei o Thiago para participar do projeto com a gente. Gosto bastante do trabalho porque com o violão posso misturar o Baião, o Maracatu e outros estilos regionais do Brasil. Estudei na Escola de Música do Estado de São Paulo [EMESP] e na EM&T [Escola de Música e Tecnologia] e tenho projetos onde toco viola caipira, mas o meu propósito é diversificar musicalmente. Mesmo tocando no Hijaz, tento mostrar um ritmo mais brasileiro. Se você isolar a percussão, por exemplo, você consegue encaixar outros elementos musicais brasileiros. Estamos estudando algumas inclusões em nosso repertório.”, conclui.

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Shadi Alahmad, 28, é vocalista e tecladista do Hijaz. Com a proximidade de Pedro, decidiu formar a banda com a bagagem que adquiriu nos anos de aprendizado e das aulas que ministrou no Oriente Médio. Por ter se identificado com o Brasil, Shadi aproveitou a experiência dos dois colegas de banda para ampliar o leque de oportunidades. Com sucesso. “As letras das canções falam sobre positividade. Temas tradicionais árabes são misturados com os elementos do Brasil. O resultado é um trabalho singular com a ajuda de dois grandes músicos.”, Ressalta Shadi.

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Apresentação

Duas semanas antes do Natal de 2017, o Senac Tatuapé convidou a Hijaz Brasil para se apresentar em uma data comemorativa aos funcionários aniversariantes do mês de dezembro. “O Senac [Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial] é uma instituição privada sem fins lucrativos que foi criada com o intuito de proporcionar a formação de menores aprendizes e a qualificação profissional de adultos”, conforme institucional da organização. O Senac em si abre espaços para o cenário multicultural. No campus Tatuapé, zona leste de São Paulo, a instituição realiza determinados eventos para engajar o público interno e assim estreitar relações entre os colegas de trabalho.

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Neste dia, o sírio Alaa Deep, chef de cozinha e amigo de Shadi encerraria suas atividades laborais no Senac. Para comemorar sua nova fase profissional, Alaa recomendou o Hijaz para tematizar o fim de tarde que seguiria. Chamado de “Noite Árabe”, o chef montou uma pequena cozinha para preparar pratos árabes e servir aos colegas de trabalho. Antes do jantar, o Hijaz se apresentou no auditório.

Thiago Linhares chegou ao local antes dos demais integrantes da banda. Guardou o cajón em uma sala e esperou a chegada dos colegas. Aos poucos, logo após o término do expediente, os funcionários espiavam a preparação do auditório. Com a chegada de Pedro e de Shadi, os instrumentos foram montados. Afinação e instalação das caixas de som. Seria uma noite diferente.

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Estava programado que o Hijaz faria o show e em seguida o jantar seria servido. Em poucos minutos, as poltronas foram ocupadas e a luz do ambiente atenuou-se. As batucadas no cajón começaram devagar, aumentando conforme os primeiros acordes do violão. A voz de Shadi surgia ao toque do teclado enquanto os dois integrantes faziam a abertura. Os espectadores observavam atentos diante de elementos sonoros tão diferentes.

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Durante aproximadamente uma hora e quarenta minutos de apresentação, a plateia batia palmas, fotografava, filmava e em frente à banda dançava, com Shadi cantando e envolvendo o público. O repertório foi amplo: iniciaram com a música Suriyana de autoria do próprio Shadi. Depois, Fok Alnakel Baly Maak, conhecidas canções sírias badalaram o auditório. Mixaram ritmos brasileiros com músicas antigas da palestina. Em seguida, durante quase grande parte do tempo de apresentação, músicas egípcias de autoria de Amr Mostafa e Tamer Hosni fundiram-se com outros ritmos brasileiros. Um dos momentos mais marcantes foi no final, durante a apresentação de uma antiga melodia de um poeta árabe de Andalusia, como era chamada a Península Ibérica entre os séculos IX até XVII pelos muçulmanos. Salva de palmas.

Após a apresentação, os integrantes reuniram-se para contar um pouco da história pessoal de cada um e sobre os projetos do Hijaz Brasil dali pra frente. Ao que tudo indica, valores são levados em consideração; o respeito às culturas diferentes, as letras positivas que tendem a elevar o astral humano. Combinadas conseguem passar mensagens com um mesmo propósito e em uma mesma língua: a unificação dos povos sem distinção, onde a guerra não tem espaço e a prosperidade surge de cada canto do planeta. “Desejo a união de todo o Oriente Médio, que as guerras civis parem e que o sonho de cada um possa ser realizado”.

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